terça-feira, 28 de agosto de 2012

Reportagem: Os fanzines invadem as universidades


Alternativas

Os fanzines invadem as universidades

Esquecidos por alguns anos, hoje os zines são utilizados como método alternativo de Trabalho de Conclusão de Curso, Pós-graduação e Mestrado.


jornalista e fanzineira, Karina Francis
Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, a jornalista, formada em 2010, Karina Francis, utilizou o fanzine, pois queria trabalhar com um material, diferente. Dessa forma, optou também por um tema que se encaixasse com a proposta dos zines: Música Independente Na Contemporaneidade. “Meu contato com os fanzines aconteceu há anos, quando participei de uma oficina. Além disso, sou fanática por música independente, e sempre gostei de pesquisar sobre este universo. O fanzine serviu como um veículo para divulgar minhas próprias histórias”, ressalta.
Karina ainda destaca como foi a aprovação dos professores diante do veículo escolhido. “No começo foi complicado, alguns professores desconheciam a importância histórica do fanzine, e por isso, não davam tanta credibilidade para o material. Entretanto, na UMC fui a primeira a produzir um zine, porém em outras Universidades é um produto comum, seguindo até mesmo para a linha de pesquisa”, destaca.

 Em suas aulas, o fanzineiro, coordenador e professor de Pós-Graduação da disciplina de HQ e zine no curso em Design Gráfico da FIG-UNIMESP, Gazy Andraus explora os zines em forma de laboratório de criação e também de aprimoramento de trabalhos em equipes, despertando o senso de companheirismo e de debate. “Eu os abordo como produção alternativa, como uma revista, mas totalmente livre. Mostro os fanzines de variados temas e formatos, e faço com que os alunos criem um novo a partir de suas idéias. Eles piram na onda dos zines”, brinca.

“O fanzine pode ser uma publicação impressa, um vídeo ou um áudio. O que vale é comunicar!”

De fato, é possível perceber que várias iniciativas importantes surgiram para ajudar a movimentar o cenário dos fanzines, não apenas como interesse dos acadêmicos em inovar os meios de aprendizagem nas universidades, mas também como meio de divulgação.

 Gazy Andraus, Fanzineiro, coordenador e professor
Segundo Gazy, os zines começam a expandir nos horizontes e já aparecem em livros. “Para a universidade há o livro, surgido da ideia de uma professora universitária, a Cellina Muniz, que convidou vários pesquisadores (incluindo-me) para escrevermos um livro sobre fanzines direcionado ao ensino. Assim surgiu o livro FANZINES – Autoria, Subjetividade e Invenção de Si”, conta.

Nele, dentre vários artigos, Gazy escreveu junto ao amigo e agora professor da Universidade Federal da Paraíba, Elydio dos Santos Neto um texto, “Dos Zines aos BiograficZines: Compartilhar Narrativas de Vida e Formação com Imagens, Criatividade e Autoria”, que justamente é fruto de uma experiência em sala de aula universitária e de pós-graduação no mestrado em pedagogia na Universidade Metodista de São Paulo.

A ideia empregada era aquela defensora de que os professores devem trabalhar o autoconhecimento, e para isso, nada mais positivo que entender e criar seus próprios fanzines colocando neles textos, sentimentos e imagens de sua própria experiência de vida. “Os cursos foram um sucesso e os alunos se espantaram também com as possibilidades criativas que podem desenvolver, e de poderem criar uma revista própria, independente, e com conteúdo biográfico riquíssimo, que os alerta também a saberem como chegaram a serem humanos que são, sensíveis, e também profissionais”, ressalta o fanzineiro, Gazy.

Professora de Educação Infantil, Fabiana Menassi
Para a fanzineira de carteirinha e professora de Educação Infantil, Fabiana Menassi, as utilizações de fanzines nas universidades podem ter suas vantagens e desvantagens. “A vantagem é que o fanzine pode ser valorizado por mais uma comunidade: a universitária. E, acredito que a influência dos zines extremamente benéfica, pois estimula a criação mais independente. Além disso, dará mais liberdade de expressão a quem deseja comunicar alguma crença. É alucinante”, ressalta.

A desvantagem, na verdade é um receio pessoal, de que os professores monopolize o fanzine e o torne científico demais, dando a ele regras, que poderá dificultar o seu acesso à muitas pessoas. “A minha crença é de que muito do que se torna acadêmico fica menos acessível, mais técnico, e às vezes, até perde o encanto. Enfim, não custa nada tentar e conferir os resultados. Que os fanzines entrem nas universidades, assim como toda a cultura independente”, finaliza Fabiana.

 A nova geração de fanzineiros

A partir do momento em que os fanzines se espalham nas Universidades é notório a criação de novos trabalhos. Dessa forma, surgem novas opiniões, bem como novos fanzineiros, como o caso da jornalista, Karina Francis e a estudante do 1° ano de jornalismo, Jéssica Almeida.

Após a produção do fanzine sobre músicas independentes como Trabalho de Conclusão de Curso, Karina fez um site para continuar suas publicações. “Hoje, a influência dos zines na minha via é total. O Rockzine ultrapassou as paredes da universidade e está na sua terceira edição. Além disso, estou ampliando esse projeto na pós-graduação que estou cursando e pretendo continuar pesquisando esse tema”, conta.

Estudante do 1° ano de Jornalismo da UMC
Já para a universitária, Jéssica Almeida, o fanzine ainda era um tema desconhecido, porém assim que conheceu a ideia, adorou. “Eu achei a proposta muito interessante, porque o foco esta na "revista" e não no público leitor, acho que isso deixa o trabalho menos monótono, ou seja, não se limita em agradar, apenas”, opina.

Jéssica, conta que seria interessante se houvesse na grade de disciplinas, aulas sobre zines. “Eu ia adorar, os professores vivem falando que nosso texto no 1º ano é muito castrado, deveriam então estimular ainda mais esses projetos alternativos. E, poderia também ser um meio de estimular a leitura e a escrita”.
Além da importância, Jéssica ainda revela algumas dicas de como o material poderia ser divulgado para o público universitário. “Poderiam ser feitas campanhas explicativas (porque muitas pessoas não sabem o que é) e através dos próprios fanzines, nos quais a galera pudesse interagir. Enfim, é preciso divulgá-lo entre os meios que estiverem ao alcance”, finaliza.

Mas, afinal, o que é Fanzine?

De acordo com o Professor e Doutor, Henrique Magalhães os fanzines são pequenos boletins de fãs, surgiram nos Estados Unidos na primeira metade do século XX, tornando-se o veículo dos novos autores da literatura popular.
Os primeiros zines brasileiros surgiram em meados dos anos 1960, tendo como pioneiro Ficção , lançado por Edson Rontani em 1965, em Piracicaba, SP. Foi nessa época que começaram a circular os boletins amadores com anúncios de troca e venda de revistas, críticas e comentários sobre as histórias em quadrinhos.
Muitos estudiosos, como Gazy Andraus, defendem que: “esse veículo de comunicação deve possuir apenas textos, informações e matérias sobre um determinado assunto”, ressalta.

“São vários os motivos que levam uma pessoa a fazer um fanzine, o que está na origem do seu surgimento é o fato da pessoa ser fã de algum assunto e querer manter contato com outros.”

Além disso, Henrique Magalhães aponta as principais características de um fanzine como interesses por assuntos estranhos ao grande público, a utilização do humor ácido, a criação de narrativas surreais, e a despreocupação com a autoria dos materiais empregados em sua composição.

Livre de amarras, os fanzines podem tratar de muitos assuntos, como ficção científica, poesia, música, feminismo, religião e política. De acordo Gazy Andraus, os zines podem ser produzidos e lidos por qualquer faixa etária. “Cada pessoa se torna autora (ou co-autora) e pode quebrar os limites desenvolvendo temas pessoais com formatos os mais variados, expressando seus ideários, gostos particulares, e dispor como quiser suas informações obtidas, elaborando sua própria edição, fora do circuito “oficial” da editoração social”, descreve.

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